O SURGIMENTO DE UMA NOVA VERSÃO DO NT

 

Pastor Fridolin Janzen

 

A primeira Bíblia na língua portuguesa que possuí recebi de presente dos meus primos quando havíamos recém-mudado de Curitiba para o Canadá. Era uma João Ferreira de Almeida Atualizada. Nem ouvira falar a respeito da polêmica em torno da confiabilidade de manuscritos alexandrinos ou bizantinos. Algo, porém, me incomodava. Aqueles colchetes! Dizia a introdução ao texto que aquilo não fazia parte do texto original mas era matéria de Almeida. Sem saber do que se tratava, tinha uma certeza: Aquela frase minava a autoridade das Sagradas Escrituras! Além disso tinha um símbolo estampado, numa das páginas iniciais, com os dizeres muito sugestivos: “A Palavra de Deus para uma Nova Era”.

A Bíblia me acompanhou durante os meus estudos na Alemanha, Suíça, Itália, EEUUA, (Maranatha Baptist Bible College, Watertown, Wisconsin) e retornou comigo para o Brasil em 1978, quando recebi a incumbência divina de aqui exercer o ministério missionário.

Obviamente agora já não era tão cru em relação aos manuscritos. Sabia, também, que a única versão das Escrituras na língua portuguesa que estava baseado no texto da Reforma, que foi usado por todas as grandes traduções das Escrituras nas diversas línguas, conhecido como Textus Receptus, compilado por Erasmus von Rotterdam, era a versão conhecida por Almeida Corrigida Fiel, da Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, que surgiu mais tarde. Incluímos no Regimento Interno da Igreja um artigo, em conjunto com as outras igrejas batistas independentes fundamentalistas de Campo Grande, que promoveríamos esta versão nas igrejas.

Sendo, porém, que eu me acostumara com a “Atualizada”, tendo decorado os versículos Bíblicos da mesma, sabendo em que lado da página que pensamento estava localizado, continuei utilizando a mesma, tirando os colchetes e acrescentando nela à mão o que faltava.

Meus filhos cresceram, todos com a Trinitariana debaixo do braço, e certo dia chegaram e chamaram a minha atenção ao meu procedimento incongruente: “Pai, no Regimento Interno da igreja está escrito ‘Trinitariana’ e o senhor está usando a ‘Atualizada’”. Tentei justificar o meu posicionamento com: “É a versão com a qual estou acostumado. Sei em que lado da página está que versículo e agora é difícil mudar”. Não demorou nada e recebi uma linda Trinitariana com zíper deles de presente. Subi no púlpito para pregar e pensei comigo mesmo: “Não é possível que sirvamos a Palavra de Deus nesta linguagem quase incompreensível aos nossos jovens!” Sendo que não havia alternativa, me calei e prossegui promovendo a Trinitariana. Toda Bíblia que era presenteada era uma Trinitariana, e todo novo convertido era motivado a comprar a mesma.

Temos na igreja uma tabela de leitura Bíblica para ler a Bíblia toda em um ano. Na passagem do ano 2000 para 2001 tomei uma decisão: “Vou traduzir o texto diário da tabela de leitura Bíblica do Novo Testamento para uma linguagem em uso atualmente. Uma versão somente para uso particular”. Sem maiores pretensões peguei a minha King James e comecei a traduzir o texto. No início de janeiro fomos visitar a família em Curitiba, já com alguns capítulos traduzidos. Eu faria um teste com o meu irmão físico e espiritual Waldemar, perito no que se refere às questões relacionadas aos manuscritos. Imprimi umas páginas, sem incluir o meu nome, entreguei-as a ele com uma colocação como: “Leia e veja o que você acha!” Não coloquei o nome, achando que ele seria frontalmente oposto a uma tradução moderna do Textus Receptus. E, sinceramente, temia uma reação violentamente contrária por parte dele. Ele olhou de soslaio na minha direção e disse: “Foi você que fez isto?” Meio sem graça e gaguejante respondi: “Sim, fui eu!” Ele explodiu, então, num entusiasmo atípico dele: “Isto é muito bom! Você deve continuar este trabalho para ser publicado!” Foi neste momento que fui motivado, sem pretensões prévias, de me dedicar mais a este trabalho, com o único objetivo de colocar uma versão na linguagem atualmente em uso no Brasil nas mãos dos novos convertidos.

Gastei na média de quatro a doze horas por dia para trabalhar no texto durante mais de quatro anos. Analisei palavra por palavra no grego. Comparei a tradução palavra por palavra com a King James, com Lutero, com a versão em italiano, em espanhol, com a ACF, com as sugestões do irmão Hélio de Menezes, e, quando em dúvida, com uma das aproximadamente 35 versões em mãos. Surgindo dúvidas pude entrar num grupo de discussão dos doutores sobre um determinado assunto, recurso disponível graças somente à internet (percebi também que nem eles concordam em todos os detalhes). Fiz a primeira passagem extremamente radical para atenuá-la posteriormente e torná-la fluente. Durante este tempo li o Novo Testamento centenas de vezes, palavra por palavra. Já que não tive acordo nenhum com denominações, nem pressões dos que julgam ser os donos da verdade, nem participei de acordos entre sociedades Bíblicas de não alterar este ou aquele termo, pude fazer um trabalho isento de influências. A minha indagação e oração sempre foi: “Senhor, ajude-me a encontrar o termo que o Senhor deseja neste lugar!” E senti a maravilhosa direção de Deus a todo o instante. Teve momentos em que demorei até quatro horas para encontrar o termo apropriado. Tive vários irmãos do meu lado aos quais passava os textos para passarem por um escrutínio mais minucioso.

Certo dia um dos meus filhos me disse: “Pai, ninguém vai ler esta sua versão!” Isso ele disse porque ela ainda estava muito áspera na leitura. Eu respondi algo como: “Não é do meu interesse que alguém leia a minha versão. Eu quero ter uma versão que eu possa ler e na qual possa confiar plenamente!” Hoje ele sobe e desce pelas ruas da cidade com a minha versão debaixo do braço para evangelizar os seus amigos. Várias pessoas já aceitaram a salvação no Senhor Jesus Cristo através do uso desta versão.

“Você vai ficar rico com esta sua versão, Fridolin!” disse-me um irmão em Cristo. Assustei, porque jamais havia pensado em dinheiro até aquele momento. Esta frase, porém, demonstrava que o irmão previa o sucesso da versão.

“Fridolin, você não sabe como os meus devocionais tem se tornado abençoados quando comecei a usar o seu Novo Testamento! Eu já não confiava mais no que lia!”, disse-me o meu irmão carnal e espiritual Hermann, residente no Canadá. Na minha recente viagem ao Canadá ele ocasionou um encontro com uma líder denominacional, responsável para levantar recursos para projetos de uma grande denominação no Canadá. “Fridolin, eu arrumo o dinheiro para financiar a impressão deste Novo Testamento no Brasil!” foi o que Ewald Unruh me disse. Até a presente data não enviei nenhum e-mail para este irmão. Antes de qualquer decisão procuro pela vontade de Deus e não sigo os meus caprichos carnais e egocêntricos. Já surgiram várias propostas semelhantes, mas o mesmo filho que disse que ninguém leria a minha versão, agora reagiu espantado: “Mas pai, o senhor não vai vender os direitos desta sua tradução, vai?”

“Pastor, por que não se fez uma versão desta há anos? Eu nunca entendia a leitura da Bíblia, mas agora estou entendendo perfeitamente!” confidenciou-me um filho espiritual meu na cidade de Dourados. Neste elogio encontrava-se uma acusação oculta: “Vocês crentes fracassaram em não fazer a Palavra de Deus compreensível para o povo!”

Certo dia recebi uma ligação de um missionário americano desconhecido: “Pastor Fridolin, eu fiquei sabendo que o senhor está traduzindo o Novo Testamento com base no Textus Receptus, eu só queria lhe dizer que estou orando pelo senhor!” Fiquei surpreso e envergonhado! “Um pastor desconhecido orando pela tradução!” Esta oração é um sinal de que existe a necessidade e a expectativa pela nova versão.

Após passar pelos diversos estágios de uma tradução, colocamo-na à disposição da crítica na internet. Ao invés de se discutir intenções subliminares, deveríamos nos unir em torno deste projeto para aperfeiçoá-lo ao máximo e não ouvir críticas posteriores.

“E a ‘Trinitariana’ como fica. Você não lançou esta versão para fazer frente à mesma?” É óbvio que não! Como salvos em Cristo temos uma única meta que consiste em somar esforços e não destruir a obra! Creio que há espaço para duas versões, aliás três, incluindo a versão literal do irmão Hélio de Menezes, com base no mesmo conjunto de manuscritos gregos. Tanto é que às vezes é possível escolher entre um ou mais sinônimos numa determinada passagem. Se tenho a opção de comparar versões, o texto se torna mais rico e mais compreensível.

Somos profundamente agradecidos pelo apoio recebido de vários irmãos em Cristo. Gostaríamos ouvir, também, os comentários de nossos opositores. Abrimos especialmente para esta finalidade a rubrica “chumbo grosso”. Atirar por detrás é covardia. Queremos receber os tiros frontais para oferecermos respostas francas, abertas e transparentes.

Pensando sobre as reações a este trabalho, que estão em andamento, lembrei-me das pessoas que são lembradas, ou não, e de que maneira, na história da humanidade: os inertes não são lembrados; os que agem são lembrados: Jesus, Pedro, André, Tiago, etc; os reacionários são lembrados: Anás, Caifás, e seus aliados; os omissos, porém, também são lembrados: Pilatos, Herodes, etc. Espero que o irmão se una aos que se esforçam para tornar a Palavra de Deus mais próximo do coração e da alma dos brasileiros. Pelo que sabemos é a primeira vez na história que um brasileiro traduz o Novo Testamento para o português, e certamente a primeira vez que um batista fundamentalista independente desenvolve esta tarefa. Não seria razão de louvar a Deus e unir esforços?

Sempre há pessoas que temem, e com razão, o novo e o desconhecido. O conservadorismo deve se estender à teologia, à moral e à ética, mas não às estratégias, metodologias de trabalho e ferramentas em uso (a não ser que firam princípios Bíblicos). O temor pelo novo é justificável, desde que aliado à coragem da análise imparcial dos fatos.

 

Desejamos as mais ricas bênçãos de Deus a todos os que são contrários a esta obra e a todos que são favoráveis à mesma!

 

 

Pastor Fridolin Janzen